Cidades criativas - transformações de dentro para fora

Ana Carla Fonseca Reis

Nos últimos poucos anos, "criatividade" virou palavra de ordem. Indústrias criativas, economia criativa, classe criativa, cidades criativas e tantos outros termos afins. Mas, afinal, por que tanta discussão a respeito de algo que sempre foi relevante para o progresso da sociedade, a competitividade econômica e a qualidade de vida urbana?

Estamos na instável mas fascinante situação de quem tem um pé em cada canoa. A canoa que está indo embora é a do paradigma construído durante a revolução industrial e que tanto afetou a economia, as cidades e nosso modo de pensar. Quem já não ouviu "Você é pago para fazer, não para pensar" ou recebeu com certa desconfiança a notícia de que um colega resolvera trabalhar em casa, em vez de no escritório? Afinal, nos últimos 200 anos as pessoas valiam pelo que produziam - se a tendência é não querer trabalhar, é preciso que o trabalhador esteja sob nossos olhos. Há eco mais presente desse período do que continuarmos falando "mão de obra"? A mão que opera, a mão que trabalha. Tudo o que a pessoa era, pensava, sentia e fazia se resumia ao que sua mão era capaz de produzir.

E assim também nossas cidades foram sendo moldadas como linhas de produção, fragmentadas entre o espaço de trabalho (a fábrica, o escritório ou a loja), o de estudo (a escola) e o de lazer (a praça, a igreja e outros).

Já a canoa que está chegando e que nosso pé ainda tateia é a de um novo paradigma, que tem por centro a criatividade. E por que ela chega? Porque o mundo mudou. A globalização e as mídias digitais fizeram com que o mundo ficasse menor, muito mais próximo; e que o mundo de cada um de nós ficasse maior, já que acompanhamos, em tempo real, a queda de Kadafi ou o campeonato japonês de beisebol. A economia também mudou. Os produtos e serviços passaram a ser cada vez mais parecidos (qual a grande diferença entre duas bandeiras de cartão de crédito ou dois detergentes em pó?) e a disputa entre eles se acirrou em escala planetária. Nessa briga, muitas fábricas quebraram e outras escaparam para onde fosse mais barato produzir. Nas cidades sobraram as histórias, que se esvaem pouco a pouco, e os prédios industriais. Da Swift, em São José do Rio Preto, à Santista, no bairro paulistano do Belenzinho; das indústrias Matarazzo, em Presidente Prudente, ao Edifício Prada, em Limeira.

É exatamente nesse contexto que a criatividade surge como diferencial, capaz não apenas de produzir produtos e serviços com propostas novas, mas também de apontar novas vocações para nossas cidades. Os modelos são os mais distintos, já que cada cidade é diferente. Paraty, pérola patrimonial que ficou preservada até a década de 1970, foi redescoberta pelo turismo com a construção da Rio-Santos e revelou uma essência que encantava quem era de fora. Não demorou muito para que o patrimônio arquitetônico fosse comprado pelos turistas, veranistas e forasteiros que fixavam residência em Paraty. Já o patrimônio imaterial - as festas, festividades, procissões; os ofícios de marinharia, a gastronomia, as tradições - permaneciam com a comunidade local, agora reclusa à periferia da cidade. A Flip - Festa Literária Internacional de Paraty - surgiu para reunir essas realidades cindidas, colocando Paraty, paratienses e turistas em um mesmo contexto e promovendo a reapropriação da cidade por quem é de lá. A festa literária é um fio condutor, tecido ao longo de todo o ano pela Casa Azul, ONG local encarregada da organização da Flip e braço da articulação entre governo, iniciativa privada e sociedade civil.

Paulínia, com uma história completamente distinta, seguiu outro caminho. Sua grande riqueza não é o patrimônio, mas os royalties gerados pela refinaria de petróleo implantada na cidade. Há poucos anos, o governo municipal resolveu criar uma alternativa de desenvolvimento. Para surpresa de muitos, uma cidade na qual nem havia sala de cinema resolveu criar um Polo de Cinema, com equipamentos e infraestrutura de primeríssima linha. Feito o investimento físico e oferecidos os incentivos para que as filmagens ocorressem lá, os negócios começaram a movimentar a cidade. Da quituteira que agora serve as refeições às equipes de filmagem, ao motorista que constituiu uma pequena empresa de serviços de transporte, a população começou a depender menos do petróleo.

Como todo processo em construção, há ainda vários desafios. O primeiro deles é capacitação, para que especialmente os jovens venham a ser empregados também em trabalhos qualificados. O segundo é envolver a sociedade civil não apenas na economia do audiovisual, mas na fruição e no consumo de cinema, para que a cidade não seja um local de produção de filmes que não vê.

Flip e Polo de Cinema de Paulínia. Dois modelos bastante distintos, mas profundamente contextualizados. E é exatamente por partirem de dentro para fora que eles são promissores, em termos culturais, econômicos e urbanos. Não há nada menos criativo do que importar um modelo de fora e implementá-lo na cidade, como um corpo estranho que não dialoga com o resto do sistema urbano. É esse o cuidado que temos de tomar quando organizamos festivais, festas, eventos culturais e construímos equipamentos culturais. Promover o diálogo entre um museu ou centro cultural e seu entorno, desde o início do projeto, é o primeiro passo para seu sucesso. Afinal, é ele que faz com que um projeto cultural seja "da" comunidade e não apenas "na" comunidade.

O museu Tate Modern, em Londres, ocupa desde a década de 1990 o edifício de uma antiga estação de transmissão elétrica. Situado em um bairro com vários problemas, um dos objetivos do espaço cultural era contribuir para a qualidade de vida na região. O envolvimento da sociedade civil foi visto como tão crucial, ao longo dos anos de implementação do museu, que motivou até mesmo a criação de um cargo específico: Chefe de Relações com a Comunidade. Essa atenção ao equilíbrio entre o apelo aos turistas e o respeito aos residentes locais levou o museu a se tornar o segundo espaço cultural mais visitado de Londres e a ser abraçado pela comunidade do entorno.

Se contextualização e envolvimento da sociedade civil são dois aspectos lapidares de qualquer projeto cultural, seja ele um equipamento cultural ou um festival, uma cidade criativa requer mais do que isso. Em um estudo que desenvolvi junto a 18 autores de 13 países, consolidado no livro Cidades Criativas - Perspectivas, ficou evidente que uma cidade que se pretende criativa tem três características. Independentemente de sua escala, de seu contexto socioeconômico e de sua história, uma cidade criativa é constituída por inovações, conexões e cultura.

As inovações são soluções para problemas ou antecipações de oportunidades. Em suma, são criatividade posta em prática. Das descobertas nas bancadas de laboratórios à invenção de um telhado feito por garrafas PET, por absoluta falta de outro material, uma cidades criativa é formada por pessoas que estão sempre buscando algo que torne a vida melhor. Cidades criativas vivem em permanente estado de inovação.

As conexões são das mais diversas ordens: entre passado e futuro (uma árvore frondosa precisa de raízes profundas para se sustentar), entre público e privado, entre local e global, entre áreas da cidade. Cada um de nós tem um mapa mental muito reduzido de sua própria cidade. Ele é formado pelos locais nos quais trabalhamos, moramos, nos divertimos; onde nossa família ou nossos amigos moram, onde estudamos ou por onde passamos. Quando os mapas mentais da população não se encontram, a cidade passa a ser um arquipélago de bairros e não um sistema interconectado. Entender a cidade como cidade requer que cada um de nós expanda seus mapas mentais.

É aí também que entra a cultura. Um dos fatores de maior expansão de mapas mentais são as ofertas culturais. Basta pensar em quantas pessoas nunca haviam ido ao Centro, antes da Virada Cultural; ou "descobriram" um bairro ou cidade vizinha, quando participaram de uma festividade. A cultura caracteriza uma cidade criativa não somente por ser um conjunto de valores e códigos compartilhados ou ainda pelo impacto econômico das manifestações, produções e patrimônio. A cultura também faz com que a cidade seja mais inspiradora, instigante, criativa. 

Na busca por oferecer algo especial, a grande armadilha é fazer o oposto: copiar. Quantas de nossas cidades estão abdicando de suas singularidades e se dedicando a importar tradições, como rodeios e halloween? Essa é uma estratégia de muito curto prazo. O olhar da criatividade não é de fora para dentro, mas de dentro para fora. É essa a lição que temos de aprender. E é nisso que podemos usar a tão festejada criatividade do brasileiro.

 
* Texto originalmente publicado na Revista E, SESC/SP.

** Ana Carla coordena o curso Cidades Criativas, pelo Cemec, com inscrições abertas e vagas limitadas.